Em 1994 eu passei 11 horas esperando um computador renderizar uma esfera. Era um MSX emprestado do meu pai — que havia comprado "para o trabalho", o que era uma ficção que os dois sustentávamos com educação. A cena era simples: uma esfera com material reflexivo, fundo escuro, uma fonte de luz. POV-Ray. O arquivo de cena tinha menos de 30 linhas. O resultado, quando apareceu, era uma bolinha brilhante num fundo preto que qualquer pessoa teria descrito como "nada especial".
Eu achei o máximo.
Não sei explicar direito o que aconteceu naquelas 11 horas. Eu entendia o que o software estava fazendo — sabia que ele estava calculando o caminho de cada raio de luz, decidindo onde ele batia, onde refletia, onde sumia. Era um processo que eu podia acompanhar mentalmente, mesmo sem ver. E quando o resultado apareceu, linha por linha, na tela — havia uma correspondência exata entre o que eu havia descrito em texto e o que existia agora como imagem. Isso me pareceu, e ainda me parece, uma coisa extraordinária.
Entrei na FAAP em design no ano seguinte. Formei em 97, entrei numa agência, a agência fechou. Normal. Virei freelancer por necessidade e fiquei por convicção. Tenho estúdio próprio desde 2003, aqui no Paraíso, num apartamento que já foi escritório e agora é os dois ao mesmo tempo porque o mercado foi nessa direção e eu não me opus.
Trabalho com identidade visual, web e direção de arte. A parte técnica sempre me interessou mais do que deveria para uma designer — sei um pouco de código, sei o suficiente para entender o que está acontecendo atrás da interface. Considero isso higiênico, não excepcional.
O blog existe desde 2019, com um intervalo que não vou detalhar. O Traçado de Raio é a versão atual. Escrevo quando tenho algo que vale mais de um parágrafo e menos de um livro — que é, aliás, um projeto que comecei este ano e sobre o qual não falo muito ainda.
Os temas recorrentes: design e web dos anos 90 e 2000, não como nostalgia mas como arqueologia. CG como hobby que nunca larguei. A relação entre esforço e resultado numa era em que essa equação mudou de formas que ainda estou processando. São Paulo lida como cidade visual — o que ela comunica quando ninguém está tentando comunicar nada.
Sobre mim, especificamente: paulistana do Ipiranga, 51 anos, ouvido esquerdo parcialmente inoperante desde os 7 por motivos que não vêm ao caso aqui. Prefiro texto a telefonema. Acordo às 5h30 sem querer. Tenho um terminal aberto sempre, mesmo quando não tem nada pra compilar.
Se quiser falar: vera72dpi@veribox.net. Respondo devagar, mas respondo. Se preferir texto curto: @vera72dpi@mastodon.social.