Traçado de Raio

Ir ao cinema

Em 2000, além do meu trabalho como webdesigner, eu me interessava por pesquisa de mídia como hobby obsessivo: rádio, cinema, televisão, videogame e internet (streaming e redes sociais ainda não existiam — a gente falava em "novas mídias" com aquela seriedade de quem está inventando o fogo). Me fascinava — e ainda fascina — como as narrativas servem de veículo para domesticar e introduzir coisas novas na sociedade. Um exemplo clássico: como inserir o celular nas histórias?

Se você parar pra pensar, no começo era um problema dramatúrgico de verdade. Para ser verossímil, o roteirista precisava incluir na trama aquilo que já era um instrumento cotidiano do espectador — mas que, do ponto de vista narrativo, fragmenta a unidade de espaço da cena. Com o celular, o personagem sabe que está sempre acessível: pode receber ligação, mandar torpedo. Como se resolve isso? É preciso um autor capaz de imaginar histórias com uma dimensão a mais, a dimensão mediada pelo telefone — que nem era smart na época, convém lembrar. Muitos autores simplesmente não tinham esse músculo.

Esses dias fui revisitar aquele período como lente para olhar o presente. O tema agora é inteligência artificial. O ChatGPT, por enquanto, ainda não foi pensado pelos roteiristas de cinema e televisão — salvo algumas antecipações, citadas geralmente a destempo: de Her até os computadores inteligentes e invariavelmente malvados que falam e batem duro, tipo Exterminador do Futuro e 2001 — Uma Odisseia no Espaço.

Mas eu estava pensando em algo mais específico.

Fui ao cinema ver o novo filme do Spielberg, "Dia D" (Disclosure Day). E o que salta aos olhos naquela película — palavra que uso no sentido mais literal e mais irônico possível — é exatamente o modo como foi escrita: por alguém que não tem a menor ideia do que é um deepfake, ou de como o ecossistema de mídia mudou. A premissa é mais ou menos esta: para revelar ao mundo que existem extraterrestres, os personagens decidem despejar horas e horas de vídeo original no sistema de mídia. Tudo bem. Mas como convencer o público de que aquilo que está assistindo é real, e não gerado por IA? A resposta honesta é: o sujeito que escreveu o roteiro ou fez isso há muito tempo, ou não abre o Instagram ou o TikTok há uns dois ou três anos. O Spielberg envelheceu pra mim. É uma pena. Mas acontece.