Fotografar com o Celular
Tem um arquivo no meu HD que fica acumulando textos que nunca termino. Não é rascunho - é limbo. Esse aqui ficou lá uns quatro meses porque o assunto é escorregadio. E quando um assunto é escorregadio, geralmente é porque ele está nos incomodando de um jeito que ainda não sabemos nomear.
Vou tentar assim mesmo.
Passei anos resistindo à ideia de que celular era câmera de verdade. Resistência profissional, em parte - designer tem certo orgulho de ferramenta. Mas também resistência estética. Foto de celular tinha aquela planura, aquele HDR agressivo que tentava compensar o que o sensor não conseguia entregar. Você via a tentativa.
Então os sensores melhoraram. E o processamento melhorou mais ainda.
Aí veio o problema real: a câmera do celular não ficou boa. Ficou conveniente. E "conveniente" tem uma forma de dissolver práticas inteiras sem avisar, como um solvente que você não percebe que estava usando.
Eu sempre fotografei por razões funcionais. Registro de projeto, referência de textura, detalhe de tipografia numa fachada velha de Pinheiros que vai ser demolida semana que vem. Nunca fui fotógrafa no sentido de quem pratica fotografia - era documentação de trabalho. O celular era perfeito pra isso. Rápido, sempre no bolso, qualidade suficiente para o que eu precisava.
Só que em algum momento o "suficiente para o que eu precisava" virou outra coisa.
Comecei a notar composição. A esperar a luz mudar. A andar mais devagar numa calçada por causa de uma sombra que só estaria ali por mais dois minutos. Isso não é coletar referência. Isso é fotografar.
E foi aí que a conveniência começou a me perturbar.
O celular atual - o que ficou na gaveta quando comecei o experimento dumbphone esse ano - tinha um sistema de câmera que fazia coisas que eu não pedi. Ajustava exposição antes que eu decidisse a exposição. Sugeria enquadramento com uma caixinha pontilhada. Aplicava processamento que deixava tudo ligeiramente mais bonito do que estava. E "ligeiramente mais bonito" é exatamente a quantidade de intervenção que você não percebe no momento, mas que acumula.
Não é diferente do que aconteceu com o design.
Quando comecei, para fazer uma grade decente você precisava entender o porquê da grade. Hoje o software sugere a grade antes de você perguntar. O resultado é que uma geração inteira de designers sabe usar a ferramenta sem saber o que a ferramenta está fazendo. E a foto fica boa. E o layout fica limpo. E tudo fica num nível aceitável de competência que é, de certa forma, a morte da incompetência criativa - aquele momento em que você erra de um jeito que te ensina alguma coisa.
A câmera que erra junto com você tem valor pedagógico que a câmera que te corrige não tem.
Isso não é nostalgia de dificuldade por dificuldade. É uma observação sobre o que se perde quando a ferramenta assume os riscos no seu lugar. Risco zero, aprendizado zero. Foto bonita. Designer mediano.
Não tenho solução. Não é o tipo de coisa que tem solução.
O que tenho é o hábito de, quando pego qualquer câmera agora, desligar tudo que pode ser desligado. Não por purismo. Por querer saber o que estou fazendo, mesmo quando o que estou fazendo está errado.
Às vezes a foto fica feia. Fico olhando pra ela tentando entender por quê.
Isso eu aprendi com o POV-Ray, aliás. Você passa 11 horas renderizando uma esfera e ela fica torta — você aprende mais sobre luz do que em qualquer tutorial. O erro tem resolução. A correção automática não tem nada para te ensinar.